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#semcasa

julho 27, 2017

Enquanto estamos dando os primeiros passos pra viver uma vida minimalista, reduzir compras, comer de forma mais saudável, tem gente que já foi muito além! A Carol é uma delas. Nesse texto ela nos conta como decidiu viver um tempo #semcasa. Ela e o Franklin estão na estrada há algum tempo e compartilham suas experiências em uma página do Medium. Inspire-se! :)

 

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Quem nunca acordou um dia com vontade de mudar de casa, de vida, de paisagem? Mas como minha mãe diz, vontade dá e passa. Na maioria das vezes ela passa antes mesmo do café da manhã. Se ela demora mais um pouquinho, inventamos de pintar a parede, trocar a capa das almofadas ou passar o final de semana na serra. E isso nos acalma por mais um tempo.

 

No último ano, mesmo depois de pintar todas as paredes, ela não passou. E a vontade se transformou em inquietação e as paredes pintadas em prisão. A inquietação se transformou em possibilidade, que virou projeto e hoje realidade. E foi assim que no primeiro dia de março deste ano, eu me tornei uma pessoa sem casa.

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Até este momento eu vivia com meu marido em um apartamento confortável no Rio de Janeiro. Nós não temos filhos, somos sócios e começamos a pensar em como desenvolver projetos remotos. Só assim poderíamos viajar, experimentar novas rotinas e outras cidades para além de estar de férias. Mas para isso precisávamos ganhar mobilidade, nos tornar mais leves e mais econômicos. A primeira decisão foi nos desfazer de praticamente ⅔ de tudo que tínhamos em casa. Anunciamos móveis e eletrodomésticos para venda no Facebook, doamos quilos de roupas e utensílios de casa para a igreja, minha mãe ganhou novas toalhas e lençóis, meus amigos livros com dedicatórias. E que restou de memórias e afetos na forma dos objetos está hoje em um storage de 3m2.

 

Quando começamos tudo isso, não fazia ideia do quão emocionalmente intenso esse processo poderia ser. Porque os objetos têm memória, te contam a história da sua vida, te mostram quem você foi ou quem um dia você gostaria de ter sido. Foram semanas selecionando quais eu manteria e de quais eu me despediria. Quais eu gostaria que contassem a história de quem eu quero ser daqui pra frente. A vida passou como um filme e eu sabia que naquele era necessário decidir seguir adiante ou continuar sendo aquele monte de lembranças.

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Hoje não possuo uma casa, mas graças às tecnologias digitais e a serviços como airbnb, tenho acesso a várias em qualquer lugar do mundo. Cinco meses depois já “moramos” em 6 países, 17 cidades e já dormimos em 23 casas diferentes. Em cada uma delas descobri pequenos segredos, livros, quadros e histórias. Minha primeira casa em Austin tinha orgulho das suas origens, sendo decorada com objetos e livros sobre a cultura local. Ainda na mesma cidade, minha outra casa era apaixonada por festivais de música e cultura nerd. Minha casa em Indio, na Califórnia, diversificava suas leituras entre marketing, vendas e Paulo Coelho! Em uma das minha casas no Rio, aprendi sobre moda e meditação. Na minha casa em Lyon, na França, descobri paixão por cavalos e confeitaria. Na minha casa vegana em San Francisco separávamos o lixo e comíamos granola feita em casa. Em todos esses lugares eu aprendi um pouco sobre essas vidas e essas pessoas. Quem nunca bisbilhotou o próprio vizinho pela janela?

 

Compartilhando minha história com amigos, entendi o quanto viver sem casa pode ser instigante, interessante ou mesmo apavorante para os eles. Porque nosso imaginário de casa é rico de significados simbólicos como segurança, pertencimento, sucesso e identidade. Na nossa sociedade, a casa identifica para nós e para os outros o momento de vida que estamos, nossas conquistas, quem somos, nossos gostos e preferências. Mas neste momento da minha vida, uma casa também passou a ter outros significados, como imobilidade, raízes e acúmulos.

Foi a partir dessas conversas que percebi que as minhas histórias sem casa também podem ser inspiradoras para outras pessoas. Não que eu incentive a todo mundo saindo por aí e vivendo sem casa, mas se esse processo tem sido tão modificador para mim, talvez possa também ajudar aos meus amigos a refletirem sobre as relações com a suas próprias casas, com seus objetos, com o que realmente os fazem felizes.

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3 Comentários

  • Responda Natália Eiras julho 30, 2017 at 2:03 pm

    Gente… que coragem…. tô boba.
    Apesar de achar a sua coragem incrível, eu não sei se conseguiria largar tudo e não ter casa. Lógico…quero viajar…quero ter minha mudança inteira em duas malas… mas acho que sentiria falta de ter sempre um lugar pra voltar, pra chamar de lar. Não sei se me fiz entender…
    Bem… desejo-lhe sucesso na empreitada e que venham muitas histórias maravilhosas. =)

  • Responda Luziney Honorio Viana agosto 14, 2017 at 9:38 am

    O que esse casal fez é muito interessante e corajoso, porque tenho a mesma vontade de fazer isso um dia. Agora não posso porque tenho filhos pequenos e sou apaixonada pelo que faço , que é ser consultora natura a mais de 10 anos. Confesso que as vezes me pergunto; será que que vou perder minha identidade ou vou aprender conceitos novos do que realmente vale a pena para viver uma vida feliz?Quero conhecer o mundo, por isso estou aprendendo o terceiro idioma e depois vou para o quarto, porque gosto de conviver com pessoas e cultuas diferentes e acho que isso vai me ajudar quando começar esse projeto de vida. Minha avó diz que se vivermos 100 anos, sempre vamos estar aprendendo coisas novas que nos farão pessoas melhores e sabias.

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